Fernando de Noronha

O Menino do Dentão

Fazer medo às crianças, como forma de conseguir obediência é muito comum entre os mais velhos. O cancioneiro popular reúne inumeráveis formas de intimidação, seja em expressões carregadas de significado, seja em canções que repetem afirmativas que assustam. "Boi da cara preta, pegue esse menino que tem medo de careta...", por exemplo, é uma dessas formas de chantagem emocional, diante de uma birra, de uma teimosia, de uma falha de comportamento. Assim é a "perna cabeluda" que apareceria, a "caipora" que pegaria a criança e tantas outras.

O Menino do Dentão é uma dessas formas de causar medo praticada em Fernando de Noronha, para conseguir, com isso, a obediência ás ordens,: um fantasma-menino, com um dente só, bem grande, que correria atrás das crianças que ousassem sair de casa à noite, mesmo que fosse para uma brincadeira inocente. Alguns adultos de hoje cresceram assustados, sob essa ameaça constante, diante de qualquer falta que cometessem. Heleno Armando, primeiro diretor do Parque Nacional Marinho foi um desses.19 Outros afirmam, "de pés juntos", que viram o fantasma-menino, debochando deles, ameaçando mordê-los com o seu "dentão"; outros contam que "conversaram com ele", ouvindo-o dizer como ficara assim, ao ter todos os seus dentes arrancados pelo padrasto, que matara sua mãe a facadas e a ele com uma "pisa"...

Dona Pituca20 é uma dessas, que afirma ter encontrado com o menino numa noite escura, em que perdera o sono e "tomava fresco" na frente da Igreja dos Remédios... Outros, dentre os mais velhos, não reconhecem essa história como "verídica", embora a ameaça de uma punição pelas faltas infantis continuassem a ser repetidas por mães zelosas, à falta de argumentos mais convincentes para impedir que seus filhos vagabundassem pela ilha depois que escurecia. Medo de uns; coação de outros. Isso alimentou a história fantasiosa do "Menino do Dentão".

19 Ely Pereira de Ávila, na obra "Fernando de Noronha - da Ilha Maldita ao Paraíso" dedica um capítulo ao saudoso noronhense e nele menciona que Heleno Armando, em criança, só tinha medo de duas coisas: do "Menino do Dentão" e da "Mulher de Branco". 20 Maria do Carmo Barbosa Dias, uma figura pitoresca do arquipélago.

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