Fernando de Noronha

A Luz do Pico

Nas noites escuras, uma “luz” brilha e vagueia, subindo e descendo a soturna pedra, que é o morro do Pico... A luz forte encandeia e atrai os que passam por aqueles caminhos... Essa é a descrição da lenda que fala da “ Luz do Pico ”.

“No alto da balisa apparece uma luz peregrina – alma errante de linda francesa - algumas vezes encarnada em ser humano... Viram-na os sentenciados, aos quaes a francesa lhes ofereceu um thesouro... Certo dia um presidiário pescava sozinho ao escurecer. Sentio presa ao anzol. Ergueu a vara. Era o rosto da franceza em corpo de sereia. O pescador correu e a visão o chamou miserável, por não ter querido desenterrar o thesouro. E a luz há de viver no Pico, como fogo fátuo, até que um dia o ouro,que o espírito guarda seja dado a alguém.” 13

Muitas referências existem a essa aparição de uma mulher loura, que a tradição identificou como “ francesa ”. Contam que, no passado, dois velhos prisioneiros, estando de ronda nas proximidades do morro do Pico, foram seguidos de perto por uma “francesa”, que lhes ofereceu ouro... Apavorados, tremendo de medo, fugiram em desabalada carreira, sem se dar conta que estavam recusando a riqueza oferecida.

Dizem também que um dia, um jovem e esfomeado prisioneiro encontrou-se com a estranha visagem, da qual os companheiros mais experientes tanto falavam e começou a chorar de desespero, talvez sensibilizando a loura aparição que, rapidamente,jogou aos seus pés um tesouro e sumiu.... O homem ficou rico! Da mesma forma atribuíram muitas mortes por afogamento à aparição dessa mulher misteriosa, que seria até “pescada” nos anzóis dos pescadores noturnos, deixando-os cegos de pavor.

Insensível morro do Pico continua, impassível, assistindo à agonia dos coitados, expostos às histórias antigas. E, buscando os rastros históricos, há como explicar a presença de uma “francesa” no imaginário popular, por ter sido esse o povo que mais freqüentou o arquipélago, tanto como saqueadores, como para cooperação técnica, na aviação e na telegrafia submarina.

A “Luz do Pico” foi poetizada por Gustavo Adolfo Cardoso Pinto em 1892 e registrada por diversos historiadores e cronistas, como Beatriz Imbiriba, Olavo Dantas, Pereira da Costa e Campos Aragão .

13 Mário Melo, na obra “Archipelago de Fernando de Noronha – Geographia Physica e Política”, 1916.

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