Fernando de Noronha

A Lenda do Pecado

Essa é a lenda mais próxima dos dias atuais...

O idílio clandestino foi, finalmente, descoberto. E, para dar exemplo aos demais gigantescos habitantes da ilha, diante da conduta pecaminosa do casal, foram eles condenados: tiveram decepados seus órgãos. As partes ficaram então expostas, à vista de todos os ilhéus, para que outros adultérios fossem cometidos... “... os seios da mulher foram extirpados e colocados em uma praia e o falo do pecador exposto no ponto mais alto da ilha"23

Imagina que dois seres gigantescos - um homem e uma mulher - apaixonados, cometeram o pecado de ficarem juntos e, por isso, e foram castigados, ela condenada a ficar petrificada, com seus seios a flor d'água, junto ao morro Dois Irmãos e ele também condenado a o seu falo petrificado, no morro do Pico.

Transformados em pedra, jazem, sepultados, para sempre, em Fernando de Noronha. Ela, mergulhada nas profundezas do mar, deixa-se nos morros tão semelhantes, chamados na brincadeira de agora de "Fafá de Belém". Ele, ereto e imponente, proclama sua virilidade de homem no morro que se avista de quase todos os ângulos e que bem poderia ser o "Bráulio" das campanhas sanitárias...

"A narrativa mítica relata um acontecimento ocorrido no Tempo Primordial, num passado longínquo, no Atlântico Equatorial, a 4 graus da Linha Equinocial. Nesse espaço oceânico, habitado por gigantes, existia uma sociedade modelada por regras e valores ético-morais extremamente rígidos. Dramática situação, no entanto, quebraria o cotidiano daquela comunidade. Um dia, irrompe, descontroladamente, a paixão entre dois gigantes. Era, porém, amor proibido, transgressor... Certo tempo depois, o idílio

clandestino foi finalmente descoberto e, em decorrência, os infratores foram submetidos às penalidade máxima: a morte. Parte dos seus corpos foram mutilados e jogados nas praias do Mar de Dentro. Dela, os seios, dele, o falo. O Tempo transformou-os em estátuas de pedra, reconhecíveis, identificáveis, perfeitas, eternizando o amor dos dois enamorados em montanhas de granito! (Rochedo Dois Irmãos e Morro do Pico). Curiosamente, não os separou nem os uniu num abraço perpétuo à face dos homens. Deixou-os próximos e distanciados, eretos, frente a frente, imagem da imóvel fidelidade, da obstinação amorosa, esperando o infinito. E assim eternamente ficarão." 24

São símbolos fálicos, nascidos do erotismo reprimido por aquela população sem mulheres durante muito tempo. São resultado da fantasia do homem que busca explicar o inexplicável, supervalorizando o sexo no amor.

Essa é a lenda de maior impacto entre os visitantes nos dias de agora, pela semelhança das pedras com os objetos da sua invenção. 23 Versão da "lenda do pecado" publicada pelo jornalista Waldemir Maia >Leite, no jornal Diário de Pernambuco, em 20 / 10 / 1985.

24 A "lenda do pecado" recontada por Janirza Cavalcanti da Rocha Lima, >na sua Tese de Doutorado da USP "O Arquipélago "Ilhado" - Cotidiano e >Identidade em Fernando de Noronha", extraída aqui do Relatório de Pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco / Instituto de Pesquisas Sociais / Departamento de Educação, Recife / 1997.

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